April 2012
Eu sou um puta cretino. Sinceramente, eu não presto. Já tentei listar o que de pior habitava em mim, mas não consegui. Creio que o que mais incomoda seja a necessidade maldita que eu tenho de andar camuflado e as várias mutações que me ocorrem todos os dias. Mas o gozado de tudo é que não faço por mal. Meu problema é a necessidade de ser mais leve. Nada comigo é meio termo. Eu não saio na rua sem minha armadura, mas quando a tiro, o que eu sou? Não passo de um qualquer boçal desprotegido. Eu desejei ser um pouco mais frio e acabei congelando permanentemente. E agora? O que eu faço? Tenho certeza de que o jeito frio que eu quis implantar em mim afastou muita gente. E quando estou nos meus setenta graus, quem é que me salva? Não dá pra viver sempre em extremos. Quem é que vai me socorrer? Quem vai estender a mão pra mim? Amor, eu olho pros céus todos os dias com a esperança de ser mais leve, de me ajustarem. Eu sou estrondoso demais. Eu sou perigoso demais, até pra mim. Eu não sei causar arranhões. Eu só causo desastres, feridas graves e vários mortos. Até eu já me matei algumas vezes, mas sai sempre ileso depois. O problema dos meus suicídios está nas outras pessoas, e é isso que me incomoda. Acontece o que eu sempre temo: eu firo as pessoas, tudo por causa das minhas manias de dilaceração. É muito capricho idiota pra uma pessoa só, amor, isso é mesquinharia demais. Isso é auto-destruição estúpida. Qual o sentido disso? Eu só vou perdendo o pouco da cor que eu tinha pra fumar uns cigarros e me ver em preto e branco, jogado num buraco sem fim. E o pior: isso tudo pelo prazer de me sentir menos humano que os demais. Isso tudo pra poder fazer drama depois e me sentir um pouco criminoso. Esse veneno todo só pra pedir salvação depois. Mas dessa vez ninguém me salva. Quem é que vai saber da guerra que acontece dentro de mim? Nem eu sei. Mas também não pretendo me salvar. Viver em guerra parece tudo que eu preciso.
— João Amaral.
